JORNALISMO COMO ANTIFILOSOFIA E A FORMAÇÃO DE INDIVÍDUOS
POTENCIALMENTE FASCISTAS NA SOCIEDADE EXCITADA: UM ESTUDO DOS
COMENTÁRIOS SOBRE O GOLPE DE 2016 EM VEJA E CARTA CAPITAL

Nome: Emerson Campos Gonçalves
Tipo: Tese de doutorado
Data de publicação: 20/02/2020
Orientador:

Nomeordem crescente Papel
Robson Loureiro Orientador

Banca:

Nomeordem crescente Papel
Wilberth Claython Ferreira Salgueiro Examinador Interno
Robson Loureiro Orientador
Priscila Monteiro Chaves Examinador Interno
FRANCIELE BETE PETRY Examinador Externo
Cláudia Maria Mendes Gontijo Examinador Interno

Resumo: A consolidação das redes sociais online tem provocado um constante estado de excitação e otimismo entre usuários da web, profissionais da área (como jornalistas) e, também, no campo acadêmico, onde têm sido defendidas teorias que preveem a transformação do nosso próprio modo de vida a partir de uma “cibersociedade” autorregulada pela “inteligência coletiva”. Contudo, na contramão da euforia exacerbada, o que tem se testemunhado nesse espaço ainda é o amplo domínio dos processos semiformativos propagados pela indústria cultural; a multiplicação exponencial de conteúdos rasos que supersaturam nossos sentidos; e a proliferação de discursos de ódio e intolerância, próprios daquelas personalidades que Theodor W. Adorno e seus colaboradores em Berkeley identificaram como potencialmente autoritárias ou fascistas. Partindo da realidade descrita, num movimento dialético de crítica negativa, nesta tese buscou-se responder como (e em que medida) a supersaturação dos sentidos dos indivíduos associada com a semiformação promovida pelos mass media contribui para a proliferação de traços da síndrome fascista nas redes sociais online. Para isso, tomou-se como hipóteses que: i) o jornalismo hegemônico, enquanto produto da indústria cultural, constrói a memória do cidadão com argumentos interessantes ao grupo que está no poder, constituindo-se como uma espécie de antifilosofia; ii) as redes sociais online, para além das expectativas democráticas, servem de extensão aos domínios discursivos dos mass media; e iii) a multiplicação exponencial de conteúdos rasos amplifica os processos semiformativos, agravando a supersaturação dos sentidos e condicionando a formação de personalidades autoritárias. Para validar as hipóteses propostas, tomou-se como base teórica e, também, como método a Teoria Crítica da Sociedade, sobretudo a partir do cruzamento dos debates/conceitos presentes nas obras Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos, de Adorno e Max Horkheimer; Sociedade Excitada: filosofia da sensação, de Christoph Türcke; e The Authoritarian Personality, de Adorno e seus colaboradores do Grupo de Berkeley. Para cumprir os objetivos necessários para a comprovação da tese, esta pesquisa foi desenvolvida a partir de quatro movimentos teóricos principais, a saber: caracterização do jornalismo como uma antifilosofia; atualização e defesa do vigor do conceito de indústria cultural para análise da situação hodierna a partir dos debates sobre a sociedade excitada; retomada das categorias de pesquisa desenvolvidas pelo Grupo de Berkeley; e análise empírica da proliferação de discursos potencialmente autoritários entre usuários da web. Nessa última etapa foi realizada uma investigação hermenêutica de 1.633 comentários publicados por internautas nas fanpages das revistas Carta Capital e Veja no Facebook. O estudo foi conduzido a partir das nove categorias extraídas da Escala F. Como “pano de fundo” para a coleta de dados foi escolhido o dia 31 de agosto de 2016, data que marcou a consolidação do golpe jurídico-midiático-parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff. Por demandar certa tolerância para participação no jogo democrático, a opção por essa “pauta” sugeria, também, uma potencial presença de pensamentos antidemocráticos, o que acabou se verificando durante os estudos do material coletado. Na análise dos comentários na fanpage da Veja, chamou a atenção a manifestação de discursos que evidenciam personalidades alinhadas com uma obsessão com o sexo e a sexualidade; com pulsão pela submissão acrítica a figuras tidas como fortes (autoritárias); e que buscam explicações míticas (superstição e estereotipia) para justificar seus atos e fraquezas. No caso dos comentários em Carta Capital, destacaram-se as tentativas de apropriação do espaço discursivo por indivíduos alinhados com um posicionamento político contrário à publicação, sendo reconhecidos nesses os traços de personalidades que, nos termos da Escala F, poderiam ser descritos como de agressividade autoritária e indisposição ao debate (antissubjetividade). Assim, a partir da discussão teórica prévia e da identificação dessas manifestações de personalidades potencialmente autoritárias já na superfície discursiva, verificou-se a validade da tese apresentada: a supersaturação dos sentidos condicionada pelos mass media nas redes sociais online é capaz de acentuar os processos que, em última instância, podem culminar com a [semi]formação de indivíduos efetivamente fascistas, condicionando a manifestação e/ou consolidação de personalidades que já conservavam essa tendência nos aspectos mais profundos de sua estrutura.

Acesso ao documento

Acesso à informação
Transparência Pública

© 2013 Universidade Federal do Espírito Santo. Todos os direitos reservados.
Av. Fernando Ferrari, 514 - Goiabeiras, Vitória - ES | CEP 29075-910