A RESISTÊNCIA DA ESCOLA MULTISSERIADA EM
COMUNIDADES CAMPESINAS DO MUNICÍPIO DE
SÃO MATEUS/ES: MEMÓRIAS E DIÁLOGOS

Nome: OZANA LUZIA GALVÃO BALDOTTO

Data de publicação: 03/07/2026

Banca:

Nomeordem decrescente Papel
ERINEU FOERSTE Presidente
FERNANDA MONTEIRO BARRETO CAMARGO Examinador Interno
GEIDE ROSA COELHO Examinador Interno
MARIA DO SOCORRO SILVA Examinador Externo
TERCIANA VIDAL MOURA DOS SANTOS Examinador Externo

Resumo: Esta pesquisa foi desenvolvida junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação
da Universidade Federal do Espírito Santo (PPGE/UFES), na linha de pesquisa
Docência, Currículo e Processos Culturais, em articulação com o Grupo de Pesquisa
Culturas, Parcerias e Educação do Campo. Insere-se no campo da Educação do
Campo, das Águas e das Florestas e problematiza de que modo os movimentos de
luta e resistência em defesa das escolas multisseriadas tensionam as políticas de
fechamento e contribuem para a afirmação e o fortalecimento dessa forma de
organização escolar nos territórios campesinos do município de São Mateus/ES. Tem
como objetivo investigar de que modo os movimentos de resistência contribuem para
a permanência das escolas multisseriadas nos territórios campesinos do município de
São Mateus/ES, no contexto das lutas pela Educação do Campo. Metodologicamente,
constitui-se como pesquisa qualitativa (Lüdke; André, 1986; Pimenta; Franco, 2008;
Fichtner; Foerste; Lima; Schütz-Foerste, 2020), fundamentada na História Oral
Temática (Thompson, 1992; Meihy, 2000; Meihy; Ribeiro, 2011; Meihy; Holanda,
2014; Alberti, 2019; Meihy; Seawright, 2021). Articula levantamento bibliográfico,
análise documental, revisão de literatura (Morosini; Fernandes, 2014; Morosini, 2015)
e trabalho de campo (Benjamin, 1994; Ginzburg, 2002; Le Goff, 2013) com
interlocutores vinculados às escolas multisseriadas e aos movimentos da Educação
do Campo. Participaram da pesquisa quinze sujeitos de diferentes territorialidades
campesinas, entre elas assentamentos, comunidades quilombolas, comunidades
pesqueiras e contextos de agricultura familiar, sendo oito educadores, quatro
lideranças vinculadas a movimentos sociais e três técnicos da Secretaria Municipal de
Educação. A interpretação do material empírico foi realizada a partir dos diálogos
produzidos no trabalho de campo e de sua articulação com as fontes documentais e
bibliográficas, tendo como orientação as categorias analíticas multisseriação,
resistências e práticas pedagógicas, compreendidas de forma relacional e em
interlocução com os conceitos desenvolvidos no marco teórico-epistemológico. Nesse
movimento, foram mobilizados os conceitos de culturas, multiculturalismo,
interculturalismo, interculturalidade, território e territorialidades e currículo dialógico,
com base em Freire (1981; 2011; 2019), Brandão (2017), Thompson (1992), Foerste
(2020; 2024), Forquin (1993), Nosella (2020), Fornet-Betancourt (2001), Caldart
(2000; 2004; 2012), Silva (2022), Ramos e Coelho (2024), Arroyo (1999; 2010; 2012;
2013; 2014), Santomé (2003), Moura e Santos (2012), Hage (2006; 2014) e Silva
(2009). Os diálogos estabelecidos ao longo da pesquisa evidenciaram que os
processos de fechamento das escolas repercutem diretamente nas dinâmicas sociais
das comunidades, produzindo deslocamentos cotidianos, fragilização dos vínculos
comunitários e distanciamento das práticas culturais e produtivas locais. Os resultados
indicam que a permanência das escolas multisseriadas está diretamente relacionada
às mobilizações coletivas protagonizadas por educadores, famílias, lideranças
comunitárias e movimentos sociais, por meio de reuniões, reivindicações junto ao
poder público, articulações comunitárias e ações em defesa dessas escolas.
Evidenciam, ainda, que as práticas pedagógicas construídas nesses espaços se
organizam a partir do diálogo, da heterogeneidade das turmas, das experiências
comunitárias e da articulação entre currículo e território, tensionando perspectivas
homogeneizadoras de escolarização. Conclui-se que as escolas multisseriadas
materializam formas próprias de organização pedagógica vinculadas às
territorialidades campesinas e que sua permanência se relaciona às diferentes formas
de resistência construídas pelos sujeitos e coletivos que atuam em sua defesa. Essas
resistências se expressam nas mobilizações coletivas, nas relações estabelecidas
com os territórios e nas práticas pedagógicas desenvolvidas no cotidiano escolar.
Nesse horizonte, as escolas multisseriadas afirmam-se nos territórios campesinos por
meio das resistências construídas coletivamente e das práticas pedagógicas que, em
diálogo com as culturas e as territorialidades dos povos do campo, das águas e das
florestas, contribuem para sua permanência como espaços de existência,
(re)existência e produção de conhecimentos.

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