INTERNACIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO ACADÊMICA SOBRE ENSINO SUPERIOR NA AMÉRICA LATINA E CARIBE: TENSÕES ENTRE O
CONHECIMENTO E O RECONHECIMENTO
Nome: CLÁUDIO MÁRCIO DE FRANÇA
Data de publicação: 22/12/2025
Resumo: O objetivo desta pesquisa é analisar se a estratégia de publicar em inglês para
promoção da internacionalização da produção do conhecimento sobre educação
superior na América Latina e Caribe (ALC) tem alcançado impacto científico,
interlocução entre pesquisadores e contribuído com o desenvolvimento
epistemológico do campo. A pesquisa parte da hipótese de que o uso do inglês como
língua da ciência tem impulsionado um habitus entre os pesquisadores, no qual o
anglicismo constitui-se como meio para obtenção de capital simbólico, visibilidade e
impacto científico, ao mesmo tempo em que reforça a hierarquia de países centrais.
O marco teórico baseia-se na sociologia relacional de Pierre Bourdieu, com ênfase
nos conceitos de habitus, campo e capital. Tal teoria é utilizada para compreender as
dinâmicas de poder e reconhecimento no campo científico. A pesquisa também
dialoga com a teoria socioeconômica de Wallerstein e com a visão de sistema global
de línguas de De Swaan para destacar como a dinâmica da produção do
conhecimento estabelece hierarquias, motivadas pela condição geopolítica e da
língua, empregada para disseminação dos resultados de pesquisa. A metodologia
adotada é o Método Relacional de Análise da Informação (MRAI), que combina
técnicas bibliométricas e a análise de redes sociais (ARS) informada pela teoria
bourdieusiana. O corpus da pesquisa é composto por artigos publicados em
periódicos científicos indexados nas bases de dados Scopus, Web of Science (WoS)
e Lens, entre anos de 2008 e 2023, que tratam da internacionalização da educação
superior na ALC. O recorte temporal se justifica por contemplar a década em que
muitos governos locais desenvolveram políticas para o maior apoio à ciência, afetando
diretamente as ações para a promoção da internacionalização no âmbito da educação
superior. A análise bibliométrica possibilitou caracterizar a produção latino-americana
durante o período analisado, evidenciando indicadores de citação, coautoria e
impacto. Já a ARS foi utilizada para visualizar as redes de colaboração entre autores
e instituições. Os resultados indicam que, apesar do aumento significativo na
produção científica da ALC nas últimas décadas, a visibilidade e o impacto
internacional dessas publicações ainda são limitados. A adoção do inglês como língua
de publicação tem sido uma estratégia comum para alcançar maior visibilidade, mas
isso nem sempre se traduz no desejado reconhecimento ou reciprocidade no cenário
global. As colaborações internacionais são majoritariamente com pesquisadores de
países centrais, reforçando hierarquias epistemológicas e a dependência de matrizes
teóricas eurocêntricas. Além disso, a produção científica em línguas locais, como o
espanhol e o português, enfrenta desafios de visibilidade e impacto, perpetuando
desigualdades na produção e disseminação do conhecimento. A pesquisa conclui que
a estratégia de publicar em inglês, embora possa aumentar a visibilidade
internacional, não é suficiente para garantir o reconhecimento e a valorização da
diversidade linguística e epistêmica da ALC. É necessário repensar as políticas de
internacionalização da educação superior, promovendo uma ciência global mais
inclusiva e equitativa que valorize as línguas locais e as colaborações intrarregionais,
sem desconsiderar o impacto social das pesquisas.
